quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Diário de uma mulher com mais de 30 (catarses)

Aqui estou eu, com 34 anos é completamente perdida. Pensava que ter trinta iria livrar minha barra, mas não, parece que tudo continua super confuso, talvez até mais que antes. Acho que a adolescência começa com uns 12 e não termina nunca!!

Eu com mais de trinta e cheia de charme haha
Quando eu era criança pensava que com  30 eu seria uma mulher bem-sucedida, mas tenho 34 e não sou nada bem-sucedida segundo o olhar popular sobre o significado desse termo. Tipo:

- Eu ainda falo tipo em final de frase, no começo ou no meio delas.

- Estou desempregada e sem nenhuma ilusão de arrumar um trampo decente

- Terminei um mestrado com 34 anos. Era a única com mais de 30 fazendo mestrado. Sou a única que continua desempregada depois de ter terminado.

 - Não tenho casa própria. Alugo.

- Não tenho crianças.

- Sou dependente economica do meu marido.

- Me aburro com facilidade. Sofro. Tenho crises de angústias.
Raios problematizadores da idade

- As vezes não consigo dormir, pois apesar de sempre estar fazendo ou pensando em algo, me crítico muito por não ser como a maioria das pessoas que conheci. Por estar desempregada. Por não ter meu próprio dinheiro. Por não ter autonomia financeira, por depender do meu marido para realizar todos meus caprichos. Por ser uma frustrada. Por saber que o estereótipo de mulher que se casa com estrangeiro pra não mais trabalhar pode de certa maneira ser encaixado no meu caso. Por saber que inúmeras pessoas não me entendem, mas me julgam e nem sabem quantas horas por dia passo enviando CV, nem sabe nada do que se passa comigo, apenas julgam minha aparência e o pouco que eu deixo transparecer.

Porém, talvez eu possa aumentar essa lista de "fracassos" segundo o olhar popular do "sucesso". Mas eu prefiro parar por aqui. Quando comecei a escrever estava meio deprê, mas no final eu percebi que esses "defeitos" me vão super bem. Por isso eu contra-ataco as minhas angustias e descrevo baixo minhas descobertas, vitorias e alegrias conquistadas apos entrar na era balzaquiana:

  • Eu alugo minha casa, ou seja pago aluguel e vc que não o faz, muito provavelmente paga prestações para o banco, em ambas situações o imóvel não nos pertence, no seu caso daqui uns 20 anos e no meu, jamais! Mas sou bem resolvida e esse lance não me perturba nenhum pouco, acho que me perturbaria se soubesse que teria que viver na mesma casa sempre... Continuando, pois aliás meus móveis são todos de segunda, terceira, quarta mão. E sou tão feliz por isso😍. Se eu fosse me levar a sério no plano de ser bem-sucedida...hahahaha!
    Eu jah sei beber, ele ainda nao
  • Bebo muito, mesmo tendo ressacas cada vez mais colossais. Porém aprendi a controla-las e hoje soh fico ruinzona se quiser, pois sei bem que pra estar de pileque bem, é necessario comer e beber agua.
  • Fumo cada vez menos, mas as vezes fumo meus cigarrinhos ou dou uns tapas. Sem neuras na hora. Neuras só no dia seguinte quando não paro de tossir. Mas soh faço isso em finais de semana com festas.
Corpinhos felizes fora dos padrões
  • Sou quase vegana, só não virei ainda, pois vira e mexe como queijo. Me alimento muito bem, amo cozinhar, mas mesmo assim meu corpo não responde aos padrões de beleza preestabelecidos e fodam-se os padroes! Com esse corpinho cheio de furos e formas eu subo e desço todas as montanhas que quero, sem parar e sem ofegar!
  • Nunca vou ao shopping, nem centros comerciais, nem nada do gênero lojas de departamentos. Faz mais de 6 meses que não me compro uma roupa nova. Me visto ainda com roupas que habitam meu armário há mais de 10 anos. Acho que vou ficar sem comprar nada por mais um bom tempo, mas nem por isso vou querer fazer disso uma bandeira de luta...ou talvez sim...
Meu filho Mocoto
  • Tenho cada vez menos amigos, amigas, amigxs. As pessoas que sobraram são as melhores, mas as vezes acho que elas estão nem aí pra minha vida. Me sinto muito sozinha, mas sei que não sou a única a se sentir assim e sei que minhas amizades, as vezes, também tem esse mesmo tipo de bad trip. Ou seja, aceitar a vida é a melhor forma de não sofrer. E de sofrencia eu tô é fora!
  • Não vou mais pra balada, balada pra mim agora se impregnou de ballade, que seria a palavra em francês para descrever caminhos a serem caminhados. Tipo (avisei logo no início sobre o uso exagerado de tipo), amo fazer trilhas, escaladas, subir no topo da montanha mais alta, ir caminhar ao lado do meu gatinho e do meu cachorrinho.
  • Viajo muito, pois sou casada com um cara que como eu, prefere investir a grana em viagem do que sair comprando qualquer besteira cara e inutil, como uma Xbox ou uma tv nova. Vamos para todos os lados, mas dormimos sempre no lugar mais barato, acampamos ou  simplesmente unimos o útil ao agradável e vamos visitar amizades que vivem em outros lugares.  Ah! E nao temos TV em casa ha 10 anos.
pés amigos
  • Parei de passar cremes no rosto. Agora só uso óleos. Pra tudo! Passo óleo de jojoba no rosto, de abacate nos olhos, de amêndoas doces no corpo, de argam nos cabelos, de oliva ou sésamo na comida. Meu xampu é bio e feito dentro dos parâmetros da economia social e solidária, meu desodorante também. Uso copo coletor de menstruação. Isso pode parecer ostentaçao, mas na verdade facilitou muito minha vida, pois simplifiquei muita coisa e logo, me estresso bem menos.
  • Planto minha próprias ervas aromaticas, mas também invento de plantar tomates, abóboras, couves, flores. Faço compostagem e faço a triagem do meu lixo. Tento produzir cada vez menos lixo.
Rostinho viajante de quem não usa cremes
  • Os perfumes que uso foram comprados há anos, assim como a maquilagem que quase não uso. Mas ainda tenho esses itens, afinal meu humor oscila tanto, que é bem capaz d'eu querer começar a andar montada qualquer dia desses e caso isso venha acontecer, sou livre para saber o que nao quero mais para mim, mas por que eu quero e nao por que me ditam o que tenho que fazer.
  • Tenho, mas quase não uso saltos. Meus melhores calçados são 3: um coturno preto, minha bota de caminhada e um par de chinelos de dedo,
  • Escovo os dentes regularmente. E uso protetor solar todos os dias.
    Filhxs ou melancia? Melancia!!
  • Não tenho filhxs e sabe, acho que isso é tão normal, me sinto muito feliz em ter apenas um cachorro com o meu marido. Eu acredito que eu seja tão feliz quanto alguém que jah tem crianças e odeio quando qualquer pessoa vem me encher as paciências com esse papo de filhxs, relogio biologico e mais um monte de baboseiras. Se um dia eu me transformar em mãe, ok, legal, mas tenho certeza que isso não farah de mim um ser humano melhor, mas sim em uma pessoa com mais responsabilidades. Não acredito que a felicidade de uma mulher e de um casal se resuma em crianças. A felicidade vai além disso. E cada umx sabe do quão feliz elx é, não é uma pessoa de fora, que soh por que tem filhxs, tem o direito  de saber mais sobre a vida  do que quem ainda não se reproduziu nesse mundo injusto, machista, racista e cheio de problemas.
  • Acho essa idéia de ter sombrancelhas definitivas muito estranha, nao gosto e nao vou ter. Também nao pinto mais minhas unhas. Eu mesma corto meus cabelos. E me recuso a encarar uma depilaçao à cera, passo lâmina mesmo no suvaco e na virilha, pois ainda tenho problemas em aceitar meus pelos ou faço assim por que quero, néao sou obrigada a ser perfeita.
  • Vou no boteco com as minha poucas e boas amigas da França com uma certa frequência. Mando tomar no cu os caras que mechem comigo e as vezes choro escondida por me discriminarem quando fazem caras de não querer entender o que estou falando.
    Subo mesmo!
  • Não milito mais, mas ninhas ideias políticas estão mais vivas que nunca! Leio muito e discuto muito com as pessoas conhecidas que são mais abertas. Eu não me calo. Mas não levanto mais bandeiras nas ruas, descobri que posso ser militante da minha vida cotidiana. Sou apenas voluntária em uma associação que defende e luta pela economia social e solidária. Mas o feminismo e a esquerda nao sairao da minha cabeça jamais <3.
  • Tenho um marido que me ama. Sim ele me ama mesmo. Nao ele nao precisa me dizer isso todo o dia, nem eu preciso ficar falando sobre isso para todo mundo, pois amor demais é tao enjoativo! Argh! Mas, ele, o Mona, é meu companheiro, meu amigo, me entende e estah sempre do meu lado. Ele compartilha comigo dessas frustrações todas, pois ele nunca me deixa na mao. Nao ele não é perfeito, vira e mexe a gente tem umas brigas, mas sempre nos entendemos. O mais importante é a nossa parceria, nossa tolerância e o respeito que nos guia. Tudo isso se resume em amor e isso é algo sem preço, que soh a calma do passar dos anos é capaz de identificar como verdadeiro.
 
Finalizando, eu tenho hoje mais de trinta, ainda não sei o que quero da minha vida, mas jah sei o que não quero. E eu nao quero ser infeliz, egoista, despota entre outros adjetivos que representem a igonorancia. Assumo que ainda sou uma adolescente um pouco diferente e mais velha hahaha, afinal se até agora ainda não consigui ser perfeita, quer dizer que isso ou não existe ou é algo que não é para mim. Pois, assumindo minhas imperfeições me sinto tão de boas, que tah bom, vamos deixar as coisas assim e soh ir acompanhando as evoluções que esse futuro nos reserva.

E você? Ja passou dos trinta? O que você acha que essa nova fase tem a nos ensinar? Mas se você tem menos de trinta, você também coleciona espectativas sobre a chegada na casa dos trinta? Como é viver isso num mundo onde tudo deve estar sempre dentro dos padrões?

Bitocas,

Mari


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Julgamentos

Meu pai é uma pessoa muito clara: ou gostam ou odeiam.
As vezes isso é meio chato, pois não existe meio termo.
Mas entre pontos altos e baixos, enfim...ele é meu pai.
Meu pai tem inúmeras qualidades, mas de uns 15 anos para cá ele sofre com a depressão, doença qual ele não aceitava tratar e que desencadeou uma dependência alcoólica das bravas. Foi quando então ele passou a ser visto por quase todo mundo a partir do que elas julgavam defeito
Quando ele tinha crises da doença, muitas vezes ele se transformava numa pessoa desagradável, o que antes era um cara de respeito, passou a ser visto como um peso.
Até eu cheguei a vê-lo como um peso.
Um peso daqueles que eu não queria mais carregar ou que outras pessoas, como a minha mãe tivessem que carregar.
Eu o julgava.
Mas não só eu, todas as pessoas começaram a julgá-lo e a julgar também como nós o tratávamos.
Quem mais sofre e sofreu com esses julgamentos foi minha mãe.
Pois é certo, minha mãe é muito maravilhosa, feminista, lutadora, poeta, artista e arteira. Ninguém nunca quis entender os porquês da sua escolha em tentar apoiar meu pai. Todas pessoas, inclusive eu, julgavam seus atos, tipo como assim ela se sujeitava a isso?
Todo mundo julgava minha mãe, todo mundo ignorava meu pai. Ninguém de fato ajudou. Mas todo mundo deu palpites.
Meu pai, recentemente, depois de cair desacordado na viela ao lado de casa por conta do álcool, foi levado para o hospital pelo Samu. Quem acionou o resgate foram os vizinhos. Meu pai quase morreu.
Pela primeira vez depoisde mais de 15 anos de lutas para que ele aceitasse  fazer um tratamento, depois de umas três internações forçadas em clínicas de ladrões que se apresentam como curadores das drogas, finalmente meu pai conheceu um profissional da saúde realmente comprometido com a saúde mental. Meu pai começou a se tratar e depois de quinze anos, hoje consigo conversar com o meu pai por mais de meia hora. Ele voltou a sorrir e a planejar sua vida.
Para mim esses detalhes são fodas...tipo, como moro longe eu mantenho contato apenas por telefone, meu pai nunca atendia as ligações e se caso o fizesse seria apenas para ser monossilábico, pois geralmente ele estava bebendo, sem contar o fato de se sentir um lixo humano por ter sido abandonado do convívio social por conta de um sofrimento sem causas aparentes que é a doença da depressão.
Eu, hoje vendo os avanços desse tratamento e podendo recuperar a cumplicidade perdida com meu progenitor depois de tantos anos só me fez aprender o quanto estive errada em todos meus julgamentos.
Não sou juíza para julgar ninguém. E fico triste em saber que em âmbito particular ou público, o esporte preferido popular seja esse, o fato de julgar.
Acredito que precisamos cada vez mais abrir os olhos para enxergar o além, para ver o que os olhos não mostram. É preciso ter equilíbrio para entender as diferenças, bons ouvidos para escutar mais e uma bela boca para falar menos.
Não precisamos julgar o tempo todo, nem querer ter razão em tudo.
As vezes o fato mais simples, que é o de escutar é o mais admirável.
Apenas três pessoas estiveram realmente ao lado do meu pai e da minha mae nessa batalha contra essa doença incompreendida por nossa sociedade moderna e julgadora. Essas três pessoas infelizmente não foram as pessoas óbvias, tipo nem eu ou meus irmãos, meus tios ou tias...tipo os amigues dos meus pais os deixaram na mão nessa história toda. Afinal...quem tem paciência com doido é bêbado? Ninguém.
Mas enfim, cada um fez o que pode. 
Só acho que eu poderia ter feito como as pessoas que realmente ajudaram: eu deveria ter ouvido mais e julgado menos.
Enfim, finalmente a história mudou. Meu pai está aprendendo a cada dia como é bom não sofrer com essa doença, minha mãe está colhendo os frutos de ter um marido realmente saudável. Porém os estigmas ainda são muito fortes e presentes. Ainda tem muita gente que não sabe perdoar ou entender essa situação complexa.
Afinal é mais fácil julgar... Mas quem sabe um dia elas possam ver aquilo que está perdido no meio dos detalhes, aquilo que é invisível aos olhos, quem sabe elas possam entender que o respeito juntamente com o amor são duas coisas intrínsecas a amizade.
Hoje pelo menos vou dormir mais leve, pois por fim entendi que até agora eu não entendia nada.
Mamãe e papai amo vocês.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Cocaína: a cultura da América Latina! #sqn

O relato abaixo retrata uma conversa que realmente aconteceu com uma estudante francesa de ciências politicas da Sciences Po de Lyon, no final do ano de 2013. Não publiquei na época e desconheço o motivo por não ter feito. Mas ai estah. Acho que ainda é um sujeito atual

Propaganda de produto à base de cocaina feito nos EUA
Tal dialogo seria comico se não fosse tragico.
.....

Outro dia na aula uma guria de uns vinte e pico me pergunta seriamente:

"Você já usou cocaína?"

o_O

Fiz cara de que porra você ta me perguntando. E ela pra se justificar, rapidamente disse:
"É que sei que a cocaína faz parte da cultura latina e como você vem de lá queria saber como é isso, as sensações e desde quando as pessoas podem começar a utilizar e ... "
"Perai! Para tudo!"- Tive que intervir -"Você ta me perguntando realmente isso? Ou seria uma brincadeira? Você tem noção disso?"
"Sim, pois faz parte da cultura latina usar cocaina, não é?!" - me respondeu com um sorriso angelical essa futura politologa.

"Festa? ok, eu trago a coca!!!" Même meramente ilustrativo
Dai, entrando na onda, concordei, falei que sim, que usava sempre, desde pequena, que cheirava com a minha mãe e avoh e que na verdade, eu estava fazendo meu mestrado pra poder me especializar no sujeito e no mercado europeu, dai quando eu voltar pra AL, serah mais facil poder trabalhar na logística ou na coordenação de projetos ligados as bocas ou redes internacionais de trafico, visando o aumentar o número de consumidores internacionais e o custo-benefício, etc, etc e baboseiras, etc.
 
Ela deu um sorrizinho amarelo, nesse momento duvidei se ela havia entendido ou nao o sarcasmo da minha resposta, pelas duvidas continuei falando necedades até que, olhei bem firme para ela, respirei fundo e disse:
"Desculpas por ter falado tanta besteiras, mas espero que você tenha percebido minha irônia e achei necessario fazer esse teatro, pois é melhor rir do que chorar ao ouvir uma besteira preconceituosa come essa que saiu da sua boca. Me permito ser menos engraçadinha, mas acho que você precisa saber que:

Primeiro, você é muito jovem pra acreditar e reproduzir uma história racista dessas, pois rotular todo um povo por conta de um estigma construido à partir do incentivo e do pensamento comum ocidental, é um ato de racismo e de burrice.

Segundo, a América latina produz cocaina? Sim, produz. Mas quem a consome? Segundo estatiscas, por mais que o consumo tenha aumentado na Africa, a grande maioria de consumidores são europeus e estadunidensses, ou seja, lugar de onde o pensamento hegemonico ocidental é construido.

Terceiro,claro que na America Latina existe consumo dessa droga, mas ela não representa nossa cultura como povo. A única cultura que a cocaína deixou por toda a AL não foi o barato da droga, mas o estigma de que somos todes consumidores ou traficantes, incluindo a violencia, essa responsavel pelas milhares de pessoas mortas todos os anos por alimentar essa rede internacional de tráfico, onde quem perde é sempre o lado mais fraco.

Quarto, a folha de coca sim representa parte importante da cultura de diversos povos andinos e esses povos dizem que ela é uma folha sagrada, porém a mesma foi demonizada pelo ocidente. Que fique claro que a folha da coca e a coca, sao feitas da mesma coisa, mas são completamente diferentes, entenda.

E quinto e ultimo, se você quiser consumir fique a vontade, não sou policia, nem sua mãe, você jah é grande para saber o que quer da vida, agora, da proxima vez que estiver curiosa, tenha mais cautela em como formular suas perguntas, pois é melhor ficar calada do que falar besteiras".
Ela riu, pois acabou ficando constrangida por ter perguntado algo tao absurdo, se desculpo e mudou de assunto.
Même antigo, mas super representativo

Eu pensei que essa historia havia acabado, dai logo apos terminar essa conversa, me encontrei com uma amiga colombiana também estudante do IEP, que me relatou que nesse mesmo dia ela escutou a mesma coisa de um outro colega de faculdade. Nohs duas estavamos indignadas. Mas ainda nao havia terminado o dia! Pois mais tarde, ao conversar por skype com uma prima que estah no Brasil, fiquei sabendo que quando ela fez seu mestrado sandwiche nos EUA, ela também escutou essa mesma ladainha por lah.


Entendo, infelizmente, que existam estereótipos pré-estabelecidos encrustados dentro da ordem social ocidental comedora de gente, só não entendo que possam existir pessoas estudantes de ciências politicas, que deveriam ter um senso crítico mais aflorado, fazendo esses tipos de perguntas.

Serah que a frase da minha sahbia avoh se aplicaria a esse caso? Tipo, ele sempre falava que esse mundo estava perdido. Realmente parece que ela tinha razão.
Enfim, ao menos nesse dia soube que duas pessoas que tinham um pensamento reduzido sobre a cultura da America Latina e o consumo de drogas foram convidadas a ampliar os horizontes e a quebrar os preconceitos. Mas, se você, pessoa que lê essas palavras, se você é gringa ou gringo e algum dia essa ideia estupida passou por sua cabeça, volte três casas e recomece sua linha de raciocínio, agora se você vem da America Latina, por favor, não se renda a ignorância e ajude na construção de respostas pedagogicas para terminar com esses tipos de  preconceitos!


Convido você a deixar suas ideias registradas abaixo na parte dos comentarios.

Aceito até desenhos, como esse do Batman bolado, quem sabe assim fica mais fácil para essa galera que não consegue entender nosso sotaque carregado (aqui outra ironia, que poderia escrever mais outro dia) ou que tem preguiça de realmente conhecer nossas culturas.

Valeu,

Mari

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Viagem em familia depois dos 30

Quando minha vida de mestranda estava por terminar, recebi a ilustre visita dos meus pais e da minha tia Meire. Os três chegaram três dias antes da minha defesa (nada de numerologia, pura sorte).
O trio fantastico que invadiu a minha vida #amo

Confesso que foram os três dias mais estranhos desses ultimos tempos, pois misturava alegria e empolgação, com ansiedade e concentração.

Foi complicado essa preparaçao final para o dia D, mas ao mesmo tempo foi  tão bom sentir o colinho aconchegante da minha mae, escutar as doces palavras da minha tia e rir do humor acido do meu pai. De verdade isso foi super importante.

Depois de terminada a hora da verdade, quando soube do resultado do mestrado, tipo minha familia estava na porta da faculdade me esperando com flores e acho que devo ter sido a unica estudante a receber flores por ter concluido o mestrado nesse dia! Hahaha! Talvez o mestrado seja algo realmente individualista na França, pois meus colegas apresentaram  e depois do resultado foram para suas devidas casas, geralmente essa galera festeja em casa, mas não diremente no dia com toda a familia. Mas isso não é um regra, pois não conheço todos os estudantes franceses, logo vai saber...

Soh sei que eu recebi flores e até fiquei com vergonha por isso! Hahaha! Depois fomos comemorar com toda a familia, tipo a minha e a do Alex, sim, pois por mais que todas as familias sejam nossas, cada um tem a sua propria (amo colocar as coisas dentro de caixas).

Todas familias reunidas na janta de comemoraçao do mestrado
Mas comecei a escrever para falar um pouco desse mês que essa moçada (mãe, pai e tia) passaram conosco (setembro e parte de outubro). Além de ficarmos na França alguns dias, nos deslocamos sentido Espanha e Portugal, fizemos uma linda viagem familiar sobre rodas. Foi tudo tão intenso, tão bacana, tão novo. Foi fantastico!

Por isso, espero que todo mundo possa ter essa oportunidade de ir para algum lugar que ninguém conheça em familia. Tal recomendação deve ser entendida para as pessoas que jah não vivem mais na casa da familia, gente mais velha que faz tempo que nao usa mais chupetas e que jah paga as proprias contas, além de lavar as proprias roupas sujas com total autonomia. Uma coisa é viagem em familia quando somos crianças ou adolescentes, outra coisa é isso, depois que somos adultes. Todas as descobertas são lindas e fazem lembrar da infância, mas também nos faz perceber que por estarmos mais velhos, talvez os papéis começaram a se inverter. Tipo, fui eu a responsavel pelos tres! Escolha de lugar para dormir, onde comer, onde visitar! Não que eu seja uma despota, mas apenas que eles me confiaram essa tarefa de guia ou organizadora de viagens. Talvez isso tambem faça parte da categoria "amadurecimento", pois acabei tomando conta dessa molecada sapeca e danada, que acordavam todos os dias as 6am e dormiam sempre depois das 01am! Da-lhe pique!

Por isso, postei varias fotos da viagem, tem muita foto de rostos e paisagens, não lembro o nome de tudo que visitamos, pois também passeamos por Barcelona e Madrid antes de chegar em terras lusofonas. Que por sinal me encantei! Gostei muito do Portugal e tudo que vai dentro: pessoas, paisagens, musicas, vinhos, comidas, estilos, arte...tudo mesmo. Me surpreendi, pois não esperava nada disso. talvez por que eu imaginasse que fosse algo similar a Espanha, mas não! Ainda bem que os portugas são super origianais.

Seguem fotos!
Em Barcelona observamos as sagradas familias


O Gaudi ia se orgulhar

Papai fumando un en la Puerta del Sol em Madrid

Mamãe e papai registrando Lisboa

"E se eles tivessem chegado realmente na india?"

Centro de Lisboa
Papai participou de uma maratona soh dele e ganho!
Dentro do bonde mais famoso de Portugal
Mamae comportada em Sintra
No ponto mais a oeste do Portugal
Achei super interessante ter esse tipo de vivência, pois soh quem esta longe entende o prazer efêmero do estar perto. Tipo eu vivo bem sem ter o contato diario com a minha familia, isso é super possivel, mas é que eu amo quando posso estar perto deles, dai aproveito cada segundo, cada suspiro. Gravo na minha cabeça os cheiros de cada momento, a iluminação, o jeito de andar, a cara de duvidas, as perguntas doidas, as risadas, os desacordos, os silêncios, as musicas, os sons. Gosto de poder ter guardado na memoria esses detalhes que juntos representam um tudo ou o todo para mim. Mesmo que tenha sido por um minuto, por um mês ou por uma vida.

Eu sei que não escrevi muito sobre como foi minha viagem, no sentido de explicar o que se fazer ou não em cada lugar, pois acho que isso depende muito de cada pessoa. Alias, existem blogs de viagem, revistas especializadas, guias, agências ou simplesmente gente curiosa que escrevem melhor do que eu esse tipo de resenha. E sinceramente, acho bem chatas essas dicas, pois cada um faz o que quiser. 
Papai, Mamae e a Torre Eiffel

Soh me limito a altamente recomendar duas coisas:

1 - viaje em familia depois de passar dos trinta.

2 - se possivel, va conhecer Portugal, esse pais é foda!

Sem contar outra coisa: achei bem interessante viajar tudo isso de carro e de ter caminhado muito com esse trio fantastico, mesmo que meu pai caminhe com dificuldade, tipo fizemos tudo e mais um pouco, muitas vezes em slow motion, mas pra que correr, né?!
Espero que tenham gostado das fotos que ilustram esse post. Quem sabe amanha ou outro dia eu me empolgue e volte a escrever algo mais interessante. Tenho muitas fotos e outras experiências, causos para escrever, mas antes queria quebrar minhas regras escrevendo essa bagunça com fotos de hoje.

Beijocas,

Mari

ps: a acentuação desse blog sempre serah tosca por culpa do teclado, désolée.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Recomeçando

Ola!

Depois de quase dois anos num sufoco infernal, parece que agora a minha vida vai melhorar! #otimismotoujours

Bom, vou fazer um breve resumo para se entender melhor:

- Em 2013, contrariando a galera que nao me achava intelecutalmente capaz, fui aceita como aluna da renomada Sciences Po de Lyon.

 - No primeiro ano eu fiz o certificado de estudos politicos e soh no segundo ano comecei a de fato a 
fazer o mestrado em ciencia politica, mais precisamente em analise de politicas publicas #aburrido

- Foram dois anos bem complicados, muitas horas de estudos, finais de semanas em casa, trabalhos em grupo, provas, etc. Tudo isso em francês.

- Me senti sozinha, chorei, tive medo de nao passar, tive medo dos julgamentos alheios, fiquei muito mais insegura, acordava todos os dias muito cedo pra tomar o trem e quase nao fui em nenhuma festa com as pessoas da facul.
escrevi minha dissertação dopada

- Fiz algumas amizades impressionantes, a maioria das pessoas eram estrangeiras como eu, tive a oportunidade de conhecer muitas outras culturas e de quebar muitos outros preconceitos.

- Nesse meio tempo tive que fazer um estagio e fuia ultima estudante a conseguir um lugar para realiza-lo. Acredito que o fato de ser esntrageira me dificultou um pouco. Mas também o fato de ter nascido no começo da decada de 80. Eu era a estudante mais velha da faculdade, eu era mais velha mesmo que os doutorandxs. Tive que me acostumar a justificar minha idade e a dizer que ainda existe  vida depois dos 30.

- Mas mesmo sendo velha e xarope, acabei sendo adotada como amiga por varias pessoas com menos de 23 anos. Eu sempre pensei que a idade fosse algo relativo e que o aumento dos numeros soh causam rugas e preconceitos. Ou seja, é tudo igual, com excessao que meu metabolismo era (e ainda é) o mais lento de todos.

- Fiz um estagio na agência de urbanismo de Lyon. Me convidaram para escrever um projeto sobre imigraçao e urbanismo. Mas na verdade esse projeto nunca saiu do papel, pois acabei fazendo pesquisas sobre as dinamicas territoriais da regiao e sobre as transiçoes fiscais. Tipo: nunca tinha estudado nada sobre isso na minha vida. Conclusao: tive que aprender. Foi chato? Foi.

- No estagio tive uma relaçao pessima com a minha tutora, em compensaçao fiquei amiga de todo mundo. Quando fui embora me deram presentes e continuo amiga de algumas pessoas de la. Foram 6 meses de exploraçao. Nao pagavam minha passagem, nem a comida, descontavam os dias feriados e trabalhava mais de 8 horas por dia. Sim, fui explorada.
Vista da Sciences Po Lyon

- Minha tutora nunca leu minha dissertaçao e acho que meu professor orientador tambem nao. Falando nele, ele desapareceu, nunca fui orientada realmente por este. Ele me deixou na mao. Soh conversamos uma vez por whatsapp (?!!?!). Mas na hora do juri, ele nao pensou duas em descer as criticas. Fiquei meio frustrada com esse tipo de tratamento.

- Nao recebi nenhuma mençao honrosa, na verdade tive uma media bem mediocre. Minha nota final foi 12,75 sobre 20. O que seria mais ou menos como um 7,5 no Brasil. Minha mençao foi "bom". 

-  Fiquei feliz por ter recebido mais qua media minima, ou seja, tive mais que 10. Mas fiquei triste, pois trabalhei tanto, me esforcei tanto, que achava que pelo menos eu poderai ter tirado um 14. Mas nao vou reclamar. Pois, ja era. 

- Agora sou mestra em analise de politicas publicas pela Sciences Po. 

- Isso deveria dizer que as portas do mercado de trabalho deveriam estar abertas para minha pessoa. Mas ainda nao estao. Mando curriluns sempre, até agora nao recebi nenhuma resposta. Faz quase dois meses que comecei essa batalha para voltar ao mundo do trabalho. Se nada der certo, vou ter que aceitar fazer outros tipos de trabalhos que nao se precise qualificaçao. Não me importa muito. Preciso trampar.

- Vou escrever com mais frequencia por aqui.

- Ah! Minha dissertaçao teve como titulo "A imigraçao vista à partir do urbanismo: uma abertura à partir do caso de Lyon". Se alguem quiser eu envio, mas esta em francês e eu não sei como faço para anexar esse documento aqui ( se alguém souber me avisa). 

Foto desfocada pela emoção. Tia Meire, mamae, Alex, moi e papai no dia do veridito final
E foi mais ou menos isso que aconteceu comigo nesses ultimos dois anos. Muita aventura intelectual. Acho que por agora esta bem, não preciso de um doutorado. Soh preciso de um emprego mesmo. E como não tenho isso, vou imaginar que sou uma grande escritora e que meu blog é super acessado. Vou me divertir. Afinal, ao menos isso é de graça e ainda por cima faz bem para saude.

Até amanha pessoal!

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Estou cansada...

...mas estou viva!!

Essa vida de mestranda veia é osso.

Só consigo escrever sobre políticas públicas de imigração e urbanismo

Mas depois explico melhor sobre o que estou trabalhando

Meu estágio está indo de boas, mas depois conto mais, pois não é nenhuma brastemp (véia merrrmo) então é que se tem é não vou ficar reclamando. Exploração x necessidade, vontade, desejo...de se formar!! Acabo sendo obrigada a encontrar um equilíbrio entre minha bipolaridade e a procrastinação.

Mas enfim, vou dar umas dias de filmes dos bons logo mais.

Acho que tenho inalara de uns15, a maioria feito por diretoras e todos com uma linguagem inclusiva de gênero, pois confirmo que é foda encontrar filmes que contenham esse equilíbrio

Bom volto ao trabalho do estágio

Beijis 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Risos e choro

Nessa última segunda pela manhã, como sempre queria ficar dormindo. Mas não podia. Tinha que levar o Mocoto pra passear, afinal ele como cachorro não consegue abrir a porta da sala sozinho, por motivos de não ter o polegar desenvolvido. Sai com ele apurada como sempre, voltei, me arrumei, tomei um copo de suco, peguei minha bicicleta e fui em direção da estação. Meu trem sempre atrasa, porém eu posso esperá-lo, o contrário não.

Essa terça foi um pouco atípica, pois geralmente quem faz o rolê é o Alex, só que ele nesse dia estava indo para o sul, a trabalho. Uma vez dentro do trem comecei a trocar mensagens de texto com ele. O Mona estava num TGV e eu num RER. Ambos nos chateávamos de não fazer nada. A espera cansa. Ela ajuda a cansar ainda mais.
Ainda bem que essa tecnologia ajuda a estar perto, mesmo estando tão longe (não muito críativa essa colocação).
O Alex começou a me escrever uma história, pena que somente eu tenho acesso ao humor dele, que geralmente é muito discreto, reservado e tímido. Afinal mais de anos de vida comum ajudam pacas. E eu tenho o prazer de rir das babozeiras mais bem humoradas e inteligentes feitas pelo meu amor. Acredito que nem todo mundo tenha essa sorte. Eu tenho e a disfruto. 
Mas dentro do trem, a menina que estava sentada do meu lado não entendia nada, pois no começo eu só estava feliz e com o passar da viagem eu tossia de tanto rir. Tentava me controlar, mas era quase impossível.
Acho que quando o corpo está cansado, rir ajuda descansar.

Cheguei no meu estágio de boas. Produzi bastante, estou trabalhando numa pesquisa bem interessante.
E no meio do meu dia descubro que o Eduardo Galeano se foi.
Como faço pesquisas e muitas informações encontro pela internet, acabei caindo na notícia da morte desse mestre, desse multiplicador de esperança. 
Chorei.
Não podia falar com ninguém sobre isso. Meus colegas não entendem muita da vida da América latina. Não entendem das nossas dores e alegrias, pra muitos deles nossa história começou apenas com a chegada dos colonizadores. Não generalizo, mas muitos e muitas, não só daquele escritório, mas de tantos outros, não só na França, mas por todos os lados, incluindo a própria América latina, não se deram conta da perda que tivemos, muito menos da nossa histórias, das nossas marcas e das nossas veias abertas e exploradas.
Galeano me apresentou a minha história. Com suas palavras ele me ajudou a conhecer quem eu sou. Minhas origens. Com sua clareza e poesia aprendi a lutar, a militar com mística e esperança. Em cada palbra eu recebia um abraço.
E foi justamente com o livro dos abraços que eu me despedi dele.
Baixei o livro no meu telefone, o mesmo que me ajudou a trocar SMS engraçados com o Alex pela manhã. O livro que li acompanhada com minha doce amiga Mariana, dentro de um ônibus voltando de Catamarca, na Argentina. Nós duas voltávamos de uma atividade do movimento de juventude, La13 Ranchos, estávamos cheias de esperanças e revoltas. E as palavras de Galeano naquele livro nos encheu de força. Compartilhávamos saberes dele e nossos. Dentro de um ônibus, que fazia em uma noite 14 horas de viagem. Temo para dormir, prosear e ler.

Porém na volta pra casa dessa fatídica segunda, se aquela mocinha que estava sentada do meu lado na ida ocupasse o mesmo lugar na volta, acho que ela se surpreenderia ainda mais! Meus labios estavam invertidos, como beiço de palhaço triste, o nariz vermelho e meus olhos cheios de lágrimas.
Chorei como se tivesse perdido alguém da minha família. E acho que assim foi, perdi alguém da minha família latino-americana. Dessa família de gente de lutas e sonhos. Dessa família que não se rende.
Chorei a perda de alguém que me mostrou que sim, temos motivos para não nos calar e para multiplicar em esperança.

Meu último SMS com o Alex nesse dia, antes de reencontrá-lo foi emblemático de tudo que aprendi com o Galeano e que junto com meu menino o multiplicamos. Ele carinhosamente, impotente diante da dor, me tranquilizou ao afirmar com algumas palavras lúcidas:
"Galeano não morreu. Ele escrevou livros para a eternidade".
E aqui faço dele imortal. Multiplicando o pouco que sei para quem possa interessar em conhecer.

Eduardo Galeano, Presente!